2007-02-04

NOZES PARA QUEM NÃO TEM DENTES

O apelo do Presidente da Câmara de Évora à votação no Templo Romano de Évora como uma das supostas maravilhas nacionais é curioso, pelo facto de fazer referência, no final do texto, à celebração do 20º aniversário da classificação como Património da Humanidade, pela UNESCO.
O pitoresco do texto é precisamente esses facto: que quase não tenham existido durante o ano que passou (2006), iniciativas da Câmara Municipal a valorizarem esse evento, tendo perdido oportunidade da sua ampliação.
É indiscutível que sem o estatuto de património da humanidade da UNESCO, Évora seria hoje uma cidade bem pior do que aquela que hoje temos, pelos efeitos que foram induzidos sobre o turismo (hotelaria, restauração, comércio e transportes), com benefícios na dinâmica económica e empresarial local, fundamental numa cidade do interior do país sem qualquer vocação económica competitiva (agrícola, industrial ou comercial), que cresceu e ainda hoje se mantém demasiado dependente dos serviços desconcentrados da Administração Pública.
Mas, a verdade é que o estatuto de “Cidade Museu” alcançado em 1986, quando o “cluster” do turismo (urbano e cultural) ainda era incipiente em Portugal, deveria ter permitido um efeito de alavancagem de Évora na dianteira entre as cidades portuguesas, que tal oportunidade procuraram e vieram a secundar.
No entanto, 20 anos depois, constatmos sim que várias outras cidades, partindo de condições menos vantajosas, ultrapassaram Évora, imprimindo maior dinâmica à condição (mundial) que lhe foi reconhecida e daí tirando maiores dividendos:
  • Não adormeceram à sombra de um estatuto passivo de “cidade-museu”;
  • Não se limitaram a garantir aquilo a que a UNESCO obrigou: aceitáveis níveis de conservação e recuperação dos seus monumentos classificados;
  • Aproveitaram o estatuto da UNESCO enquanto vantagem para aumentar a atracção e a fixação turística, através de iniciativa própria que falta em Évora: condições de acolhimento, informação e sinalização turística, animação urbana e cultural;

Continua assim por preencher uma condição essencial para que Évora possa efectivamente fertilizar um estatuto que lhe foi atribuído: a implicação dos eborenses em geral e dos seus agentes económicos em particular, de forma a ampliarem tal estatuto pela sua acção quotidiana motivadora.

Tal não aconteceu em 1986 nem foi conseguido em 20 anos, deixando aos eborenses apenas um legado, que herdaram, sem mais.

E, convenhamos, não bastará à CME apelar à mobilização dos eborenses à votação no virtual "big brother dos monumentos", para esconder a sua incapacidade quotidiana de concretização real.

2007-02-01

O CLUSTER DAS NOVELAS ALENTEJANAS TEM FUTURO

Parece estarem resolvidos os principais problemas de desenvolvimento do concelho e da cidade de Évora, nomeadamente no que às condições de mobilidade diz respeito.
Os turistas que chegam diariamente à cidade, vindos dos 4 cantos do mundo, encontram excelentes condições de acolhimento, iniciação e orientação dos percursos de exploração turística da cidade e do concelho.
Basta ver como o Rossio de S. Brás já está "excelentemente" requalificado, sendo agora (desde há 5 anos) um cartão de visita da cidade:
Sobra assim tempo, em Évora e noutras partes do distrito, para o show mediático cujo vício as novelas por cá deixaram em tempos, a alguns agentes partidários e autárquicos, os quais se deixaram enredar pela inexplicável cretinice que constitui a eleição das 7 maravilhas de Portugal pelo sistema que está estabelecido, levando a que os bairrismos e a afectividade toldem e prejudiquem uma apreciação histórica, cultural, arquitectónica, geográfica, social e económica justa e objectiva dos vários lugares de interesse nacional.
Mais deplorável ainda parece o facto de que agentes e actores institucionais e/ou políticos de cidades e vilas com estatuto nacional, internacional e mesmo mundial já afirmado e reconhecido, se prendam e se permitam deixar expor o estatuto conquistado a uma espécie de "big brother" cujo único objectivo visível será o da mediatização e aumento das audiências televisivas à custa da exploração dos sentimentos de pertença local em torno da discussão sobre o tema: "a minha terra é mais maravilhosa que a tua".
Confundir esta discussão, claramente apalhaçada, com o trabalho de promoção turística que cabe a uma região enquanto destino turístico integrado que deve afirmar-se como um todo em mercados amplos, soa a politiquice barata e a falta de saber-estar e saber-conviver democraticamente com as restantes forças políticas quando com elas e para elas se perde a razão, por culpa de alguma intolerância e sectarismo.
Não tendo nada nem qualquer interesse empatado numa disputa que já está resolvida, cuja solução e desfecho foram sancionados pelos tribunais, fiquei mais atento ao grau de coerência dos argumentos em torno da discussão sobre quem mais contribui para a elevação da sua terra ou local a maravilha de Portugal.

Veja-se o contributo que alguma(s) entidade(s) oficial local ou distrital deu esta semana para, durante 2 dias, embelezar o Templo Romano de Évora e várias das ruas da sua envolvente, permitindo o estacionamento de várias dezenas de autómóveis (imobilizados desde as 8.30 horas até às 18 horas) dos quadros de um operador turístico com estabelecimento no Centro Histórico.

Como se os mesmos não pudessem ter-se deslocado de autocarro do adjacente concelho onde dormiram, para o local da reunião de trabalho, em Évora.

No entanto, talvez por distracção, não vi nenhuma referência, nos vários comunicados de imprensa da semana, vindos de vários quadrantes e actores, a este contributo para a excelência de Évora que, pelos vistos, ainda precisa de elevar um dos seus monumentos a maravilha nacional, como se não beneficiasse já de um estatuto mundialmente consagrado, que ultrapassa a dimensão nacional.

Antes vi argumentos novelísticos, na linha daquilo que é o show mediático de alguns partidos no exercício do poder locail: muito espectáculo, pouca e má obra.

2007-01-25

O PARTIDO SOCIALISTA TROUXE MAIS DESEMPREGO A ÉVORA

O resultado de 5 anos de gestão socialista na Câmara de Évora traduz-se no aumento de 67% do número de desempregados no concelho de Évora, ao contrário do Alentejo, onde o volume de desemprego baixou 1% no mesmo período. Passados 5 anos do PS ter conquistado a Câmara Municipal de Évora:

  • Évora continua longe de uma mobilidade urbana excelente, com transportes públicos modernos e ecológicos e estacionamento adequado;
  • Évora continua longe da excelência prometida na economia e a sua base económica perdeu competitividade;
  • Évora continua longe de uma oferta desejável e adequada em espaços públicos de recreio, desportivos e de lazer;
  • Évora continua longe de uma oferta de qualidade em equipamentos culturais e de entretenimento;
  • Évora continua longe de ser um pólo indutor de dinâmicas de desenvolvimento do distrito e do Alentejo, acentuando a sua dependência do emprego na Administração Pública;
  • Évora continua longe do fim da especulação imobiliária e da diminuição do preço dos terrenos para habitação;
  • Évora continua longe do desejável acolhimento e da valorização do património existente para fixar turistas por períodos mais longos;
  • Évora continua longe de uma adequada e urgente recuperação de habitações no Centro Histórico;
  • Évora continua longe do cluster do design e da moda;
  • Évora continua longe da excelência no funcionamento e eficácia dos serviços municipais;
  • Évora continua longe da desejável revitalização económica e do Centro Histórico;
  • Évora continua longe de atrair novas empresas e empregos para os jovens recém-licenciados;

Évora estagnou e o executivo municipal PS adormeceu à sombra de um estatuto passivo de “cidade-museu”, sem atrair investimento externo e assistindo à estagnação empresarial.

O resultado é o crescimento em 70% do Desemprego de Longa Duração (que baixou 20% no Alentejo), sendo os jovens que têm qualificações superiores os mais afectados (aumento de 98% durante os últimos 5 anos), por falta de criação de novas oportunidades de emprego em Évora.

FONTE: http://portal.iefp.pt/pls/gov_portal_iefp/docs/PAGE/PORTAL_IEFP_INTERNET/ESTATISTICAS/MERCADO_EMPREGO/CONCELHOS_ESTATISTICAS_MENSAIS

2007-01-19

AO PRESIDENTE DA CÂMARA DE ÉVORA PARA FALAR COM O SEU CORRELEGIONÁRIO REITOR

Confesso-me intelectualmente impotente para perceber o que algumas vezes se passa com a Universidade de Évora e a sua suposta missão de contribuição para o desenvolvimento do Alentejo.
Não me parece que tenha sido mau aluno daquela universidade, nem que tenha deixado de me interessar pela vida da cidade, do concelho e da região, nomeadamente no que ao seu desenvolvimento económico e social diz respeito.
Por isso, não entendo como justas a acusações do Presidente da Câmara de Évora quando, na última sessão da Assembleia Municipal de Évora se rebelou contra a bancada partidária que eu integro, acusando-a de prejudicar deliberadamente o concelho quanto à instalação de novas empresas e captação de investimento externo (nomeadamente os famigerados e tão propagandeados aviões, usados idecentemente pelo Presidente da CME durante a última campanha eleitoral autárquica), só pelo facto de se ter pedido esclarecimento sobre qual o Outono em que os aviões (prometidos já desde o Outono de 2005) levantam efectivamente voo.
Mais valia que o senhor Presidente da CME estivesse atento à Universidade de Évora (agora infeliz e novamente regida por um seu ex-correlegionário do PC e agora actual do PS), sobre as opções de investigação que ali se tomam, as decisões de aprovação das mesmas pelos conselhos internos, os seus contributos para o desenvolvimento regional, para a captação de investimento externo, para a fixação ou não da maior unidade industrial do Alentejo e, nomeadamente (aqui vai uma bicada de quem não percebe nada do assunto mas que não se considera de todo burro), para o contributo de certas teses de investigação para o avanço do conhecimento científico.
Por estas e outras, não me espanta o "pseudo" choque do actual e anterior Reitor da Universidade de Évora quando se vê limitado no orçamento para este ano pelas receitas de prestação de serviços.
Talvez seja altura de avaliar e rever a qualidade e oportunidade dos serviços a prestar e a imagem da Universidade junto dos potenciais compradores (apenas uma mão meio cheia) desses serviços.
É que não podem ser os contribuintes (como nós, simples e comuns analfabetos e cidadãos desprezados pela Universidade de Évora) a alimentar alguns devaneios dos senhores investigadores e docentes que, guiados pelo único objectivo de progressão académica, ainda se permitem deixar que dúvidas sejam levantadas sobre os prejuízos que as suas acções possam causar para o colectivo de uma região que, NÃO SE PODE DAR AO LUXO DE PERDER E ESPANTAR DELIBERADAMENTE AS POUCAS UNIDADES INDUSTRIAIS QUE TANTO CUSTARAM A FIXAR durante as últimas décadas.
Ao Senhor Presidente da Câmara de Évora solicito que coordene com o Reitor da Universidade de Évora formas de contribuição positiva das duas instituições para a captação de investimento externo e para a fixação do pouco que actualmente existe.
Já uma vez o disse publicamente na Assembleia Municipal de Évora (apoiado e reforçado pelo Doutor António Serrano da bancada do PS e então Pró-Reitor da Universidade de Évora) e volto agora a repeti-lo, com maior veemência e preocupação sobre o assunto Tyco-Évora: evitem que a falta de bom-senso dê origem a alguma infeliz oportunidade de que Évora venha a conhecer realmente e na prática o fenómeno desemprego.
Nesse dia, que espero nunca venha a ocorrer, muitos mais do que os ex-trabalhaadores da Tyco sofrerão na pele as consequências dos seus actos.
À CME cabe, a bem do concelho, um papel importante.
Mais Évora: A fuga das multinacionais...
A fuga das multinacionais... A revista DIA D, do PÚBLICO, apresenta hoje como tema principal, uma detalhada análise sobre as razões da fuga das multinacionais de Portugal, salientando que nos últimos 25 anos, mais de 25 multinacionais fecharam ou anunciaram o fecho de unidades. Sem dúvida um tema actual e inquietante.
E, se o assunto, em geral, já é deveras preocupante, ainda mais se torna quando se destaca a TYCO ELECTRONICS, como uma das multinacionais que apresenta sintomas dúbios quanto à sua continuidade.É certo que noutras ocasiões também já se alvitrou a hipótese de encerramento, tendo sido encontrada sempre uma solução satisfatória para as partes envolvidas.
Façamos votos para que, também agora, não passem de meros rumores ou hipóteses académicas e que a fábrica se mantenha a laborar.
Em primeiro lugar pelo futuro daqueles que seriam mais duramente atingidos: os trabalhadores; en segundo pelo futuro da Cidade, visto que um golpe de tal envergadura provocaria um sério enfraquecimento na vitalidade económica da cidade e da região, de difícil recuperação.Mas vejamos o que se diz na revista.
TYCO ELECTRONICS ÉVORA - Sintomas à vistaPor todo o país, há multinacionais que com sérias dúvidas em relação à sua continuidade em solo nacional. Instalada desde 1969 no parque industrial de Évora, a TYCO ELECTRONICS é um dos exemplos.
A fraca aposta nos recursos humanos, a precariedade do trabalho, a frágil relação com os sindicatos da região e a falta de acompanhamento do Governo, são sinais claros de mais um final infeliz para o investimento estrangeiro em Portugal.
O grupo norte-americano adquiriu a divisão de componentes electromecânicos da SIEMENS em 1999, e, actualmente, emprega cerca de 1400 pessoas. Dedica-se maioritariamente ao fabrico de relés para a indústria automóvel, uma das áreas que mais baixas tem sofrido com a vaga de deslocalizações dos últimos tempos. Mas João Piteira, director financeiro da empresa, afasta qualquer hipótese de encerramento. “Desde 2006 que assistimos à reposição dos níveis de procura e de investimento do grupo”, afirma.
A ameaça da China, país onde a TYCO ELECTRONICS detém outra fábrica de produção de relés, é uma realidade diária. Em 2004, a unidade portuguesa perdeu algumas linhas de produção para esse destino, mas João Piteira tem tentado combater esta “tendência inevitável” com a especialização e autonomia das instalações de Évora face ao grupo. “Somos a única fábrica que produz este tipo de componentes para a Europa, temos know-how e compramos e tratamos a matéria-prima cá dentro”, sublinha.
Entre 2006 e 2007, foram investidos 20 milhões de euros no aparelho produtivo da fábrica e João Piteira espera que a aposta do grupo “se mantenha a este ritmo”, embora “não haja garantias”.Maria Manuel Serrano, professora da Universidade de Évora, já estuda a TYCO desde 2004, no âmbito de uma tese de doutoramento sobre políticas de recursos humanos.
Para a docente, “há um certo medo no ar e a deslocalização para a China é percepcionada como real”. A mensagem de reforço da produtividade é passada aos trabalhadores “com uma certa pressão” e "há um desinvestimento nas pessoas”, refere. Apesar de a empresa se apresentar como uma escola de formação, Maria Manuel Serrano concluiu, a partir de conversas com os trabalhadores e com a União dos Sindicatos de Évora, que, “além de recrutarem pessoas com baixas qualificações, têm um processo de integração pouco satisfatório e não cumprem as 35 horas de formação anuais impostas por lei”, a não ser para níveis hierárquicos superiores.
No caso de encerramento e deslocalização desta multinacional, o prejuízo não vai ficar pelo despedimento dos trabalhadores. Em redor da fábrica, foi surgindo um conjunto de empresas de capital nacional cuja sobrevivência depende da actividade da TYCO, “São perto de 500 pessoas que trabalham, algumas em regime de exclusividade, para a satisfazer os pedidos desta multinacional e que vão ter de fechar portas se esta ameaça se concretizar”, acrescenta Maria Manuel Serrano.
Até agora a docente não viu qualquer preocupação por parte do governo. “muitas vezes só quando o anúncio de encerramento chega é que actuam e, como ainda é só um cenário provável, ninguém faz nada para inverter o problema”, alerta.
Rogério Silva, da União dos Sindicatos de Évora, tem tentado estabelecer uma ponte com a empresa. Não acredita que a ameaça de deslocalização seja real a médio prazo, mas avança que na TYCO existe “um clima de repressão dos trabalhadores inaceitável” e uma postura de gestão face ao operariado própria do século XIX.
A instabilidade gerada dentro da empresa e a ênfase nos custos, em detrimento da aposta na qualificação e no conhecimento, fragilizam a sustentabilidade da presença desta multinacional norte-americana em Portugal.Relação frágilJoão Salgueiro (nome fictício) entrou na TYCO há quatro anos e meio e é um dos operadores de máquinas das linhas de montagem de relés. Nos corredores da empresa, “não se fala do encerramento da fábrica”, mas “há cada vez mais medo da produtividade da China”, conta.
No primeiro ano de trabalho, assistiu, em conjunto com os restantes funcionários, a um vídeo de sensibilização encomendado pelo grupo norte-americano. “Era um alerta para nós. Dizia que se não trabalhássemos mais, a fábrica fecharia em 2010, mas até têm anunciado grandes investimentos e vão construir um novo pavilhão de produção este ano”, afirma.
O discurso das chefias é “produzir, trabalhar, fazer mais esforço” e “há muito mais pressão do que antes”, diz. Mas as contrapartidas escasseiam. “Há muito menos prémios de produção porque os objectivos subiram e estou com problemas com o meu contrato, porque sigo por uma convenção colectiva de trabalho que eles não aceitam”, explica. Ganha 470 euros por mês e, desde que chegou à empresa, alega que não teve direito a uma única hora de formação. “Os meus conhecimentos não vão além do que aprendo especificamente para executar esta função e mesmo essa aprendizagem foi-me passada por um colega e não por um formador especializado. Somos tratados como analfabetos e estamos aqui só para carregar num botão”, lamenta.
Na eventualidade de encerramento da fábrica, este problema ganha outras proporções. Sem formação complementar e na ausência de unidades fabris na região, João Salgueiro, agora com 30 anos vê a sua empregabilidade reduzida e teme “cair no desemprego e não encontrar nenhuma solução”, termina.in DIA D, do PÚBLICO [link indisponível]19 Janeiro 2007 posted by manoelinho at 1:08 PM

2007-01-17

VALE A PENA LER E REFLECTIR SOBRE RESPONSABILIDADES

Mais Évora: Que políticas de desenvolvimento regional?
As assimetrias interior/litoral não têm a ver com a forma ou dimensão do país.
Só tem a ver com a política regional a que nos sujeitámos nos últimos 20 anos.
Basta comparar o desenvolvimento do interior Alentejano com o dos vizinhos Espanhóis.
O território é o mesmo, os valores são outros, os empresários são outros, a administração é outra.
Os financiamentos europeus deviam ter servido para construir as infra-estruturas que permitiriam desenvolver as regiões mais atrasadas.
Pois por cá parece que foi ao contrário.Depois de se gastar tanto dinheiro, porque andou o Alentejo para trás?
Porque se perderam empregos?
Porque não aumenta a produção agrícola?
Porque não há indústria?
Porque está a população rural a emigrar novamente para as cidades do litoral?
Para onde foram os fundos de coesão?
Bem sei que se fez o Alqueva (para agora o destinar ao turismo, com poluição e tudo), fez-se a auto-estrada (com portagens, para melhor importar de Espanha ou parir em Badajoz), electrificaram-se montes (para depois financiar o abate da produção agrícola e pecuária), vem aí o TGV (não se percebe com que vantagem para a região, mas certamente com muita satisfação para o sector da construção)...
Se estes eram os investimentos que faziam falta onde estão os resultados?
Que explicação nos poderia dar o ilustre Presidente da Assembleia Municipal, agricultor Alentejano de sucesso, que enquanto Ministro da Agricultura foi responsável pelas políticas de desenvolvimento regional e pela distribuição dos fundos de coesão?
Porque será que a União Europeia aponta Portugal como exemplo vergonhoso DO QUE NÃO SE DEVE FAZER na gestão dos fundos europeus concedidos para apoio à integração?

2007-01-14

A FUGA DO PRESIDENTE DA CÂMARA DE ÉVORA ÀS SUAS RESPONSABILIDADES

A falta de iniciativa de animação cultural da Câmara de Évora durante o ano em que o concelho comemorou os 20 anos da sua elevação a Património Cultural da Humanidade (2006) foi mais que vergonhosa, foi mesmo escandalosa, especialmente nos meses de verão, durante os quais os turistas mais afluem à cidade e ao concelho.
Como se não bastasse a omissão do verão, a inércia municipal prolongou-se, ao nível da animação comercial, ao período natalício, influenciando negativamente todo o mês de Dezembro e fechando o ano sem dignidade.
Acusado desta lacuna, o Presidente da Câmara de Évora, em vez de responder justificando-se com o trabalho desenvolvido, que a oposição eventualmente desconhecesse, lança-se pelo contrário ao ataque:
  • Que a oposição revela um profundo desconhecimento do que é a vida da Câmara;
  • Que a oposição tem duas linguagens e duas intervenções, apelando na CME à contenção orçamental e na rua à intervenção da CME devido a insuficiências detectadas;
Que a demagogia do Presidente da CME não tem limites, já sabíamos e conhecíamos, bastando para isso recordar as promessas megalómanas e irreais feitas pelo mesmo em 2001, quando ganhou a CM.

Vindas de um então vereador e presidente da CCRA, tais promessas ultrapassaram em larga escala o que de razoável deverá ser aceite enquanto posição política responsável, de alguém que se preocupe efectivamente com o futuro de um concelho.

Mas, como os maus vícios não se perdem, eis a "remake" da demagogia, constituída pela fuga para a frente sempre que se sente acossado, não sendo capaz de enumerar as supostas iniciativas de animação relativamente às quais a oposição se revelaria desconhecedora.
Por uma única e simples razão: quem sempre mentiu à população de Évora, e continua, não é a oposição.

Se o Presidente da CME tivesse razão e a oposição estivesse errada nas críticas de falta de animação da cidade e do concelho, não teria faltado a evocação das estatísticas do turismo recentemente divulgadas pela RTE sobre o ano de 2006: mais turistas visitaram o concelho, relativamente a 2005.

O problema é que esses turistas passaram menos tempo no concelho do que nos anos anteriores (a estada média caíu em 2006). Porquê? Porque também eles, tal como a oposição, estavam distraídos e não repararam na "excelente" animação do concelho ao longo de todo o ano, tendo decidido zarpar ainda assim?

Por outro lado, a oposição ao PS na CME não tem duas linguagens e duas actuações, antes pelo contrário, sempre foi suficientemente coerente para dar lições ao Presidente da CME nessa matéria. Talvez por isso lhe tenha conquistado um vereador.

A oposição ao PS na CME sempre apontou a necessidade de gerir o executivo municipal com rigor e contenção orçamental, propondo alterações substanciais aos orçamentos da CME em cada ano, nomeadamente no que toca a despesismos como o ÉvoraModa, o financiamento de uma telenovela ou o gasto supérfluo do Arco do Triunfo, que mais não servem do que para promover poíticamente o Presidente da CME e o PS enquanto partido governante ao nível municipal.

Também não poderá a oposição ser responsabilizada num dia e o Governo noutro, pelos insucessos do Presidente da CME ou pela inércia do executivo a que ele preside. Ao fim de 5 anos de estagnação de Évora, não há mais desculpas para os fracassos do Presidente da CME.

Longe vão os tempos dos Governos do PSD que colocavam garrotes financeiros às Câmaras deste país, como então vociferava o PS.

Agora, o Governo é justo e bondoso, por isso, mãos à obra, porque, em Évora, daquela que o PS prometeu há 5 anos, ainda nada se viu. Não chegam 5 anos? São necessários outros tantos como o anterior executivo que o Presidente da CME tanto critica? Serão ambos iguais?

Évora precisa de outro rumo e outros actores.

2007-01-10

ÉVORA PRECISA MELHORAR A ANIMAÇÃO COMERCIAL E CULTURAL

O ano de 2006 foi um dos mais fracos de que há memória em Évora, em animação cultural e comercial da cidade e do concelho, resultado da total inércia da Câmara de Évora em tais iniciativas.
Desde a total ausência de animação de rua durante os meses de verão, à ausência de iniciativa durante a quadra festiva natalícia, a inércia revela-se inexplicável no ano de comemoração de duas décadas de elevação de Évora a Património Cultural da Humanidade.
Ao contrário de outras localidades com iniciativa de animação comercial durante o mês de Dezembro, como Óbidos e Reguengos de Monsaraz, a falta de idênticas iniciativas da Câmara de Évora e de condições de atracção de visitantes (ex. de parques de estacionamento), justifica a dispersão dos consumidores por outros pólos de atracção comercial na Área Metropolitana de Lisboa e na vizinha Espanha.
Não fosse o programa de animação da Associação Comercial de Évora, desenvolvido autonomamente e sem apoio ou envolvimento directo da Câmara Municipal, e teríamos um ano inteiro sem qualquer tipo de animação em Évora.
Ainda assim, a louvável iniciativa da Associação Comercial de Évora poderia ter surtido melhores resultados se a Câmara de Évora tivesse optado por um maior envolvimento no apoio à mesma, através da criação de condições de acolhimento (ainda que temporárias) de visitantes.
O uso do edifício onde funcionou a Rodoviária Nacional enquanto parque temporário de estacionamento, a requalificação do Rossio de S. Brás, o arranjo (em vez da amputação com ferro velho) dos parques de estacionamento junto às muralhas da cidade e ao antigo PIC são apenas exemplos de iniciativas com as quais a Câmara de Évora poderia ter contribuído e não o fez, para ampliar os efeitos da acção de particulares que se substituíram à Câmara de Évora, face à inércia desta.
A Câmara de Évora deve tomar a iniciativa liderante na animação da cidade e do concelho, em vez de deixar apenas aos particulares essa tarefa.

2006-12-25

O COMÉRCIO NA CIDADE DA EXCELÊNCIA

A Câmara Municipal de Évora não parece preocupada com a natureza comercial a que têm vindo a ser destinados vários edifícios do Centro Histórico de Évora (que este ano celebra 20 anos da sua elevação a Património Cultural da Humanidade), nomeadamente em torno da sua mais nobre e central praça.
Deveria estar preocupada a Câmara Municipal de Évora e deveria, pelo contrário, tomar a iniciativa de:
  • Desenvolver contactos junto de potenciais investidores do ramo comercial, com vista a encontrar interessados na requalificação e utilização comercial adequada de espaços agora livres no Centro Histórico de Évora;
  • Elevar o grau de selectividade sobre os pedidos recebidos para licenciamento de espaços comerciais no Centro Histórico de Évora, subordinando tal decisão à adequação do tipo de comércio previsto a um Centro Histórico que é património cultural da humanidade;
  • Elevar o grau de selectividade sobre os pedidos recebidos para licenciamento de espaços comerciais no Centro Histórico de Évora, em função do benefício que os novos espaços comerciais acarretem para o concelho no que respeita a criação líquida de postos de trabalho e seu impacte sobre o emprego local, contributo para o sistema de segurança social e contributo para o sistema fiscal nacional.

2006-12-21

O FIEL DA BALANÇA DEFENDE O INTERESSE GERAL

O fiel da balança numa Câmara sem maioria absoluta, é frequentemente posto em causa nas suas posições, sendo acusado pelas várias partes de favorecer alguma delas, em função de interesses que injustamente se julgam nortear a sua acção.
Na telenovela que foi a eleição para a Região de Turismo de Évora, o vereador do PSD na CM de Évora foi acusado pelo PS e pelo presidente da autarquia de estar coligado com a CDU, por ter considerado necessário, bem, colocar um travão nos abusos de poder do PS na representação de um órgão onde não detém a maioria absoluta.
Em infelizes posições públicas então tomadas, alguns chegaram mesmo a catalogar então como negativa tal coligação.
Foi agora aprovado e viabilizado o orçamento da CM de Évora para 2007, sem entraves por parte do vereador do PSD, que, de forma responsável, ponderada e consciente, garantiu estabilidade governativa a um executivo que perdeu a maioria absoluta. Os comentários são agora provenientes de outros quadrantes político-partidários onde alguns entendem, felizmente cada vez menos, que o estatuto de oposição obriga a uma permanente posição contrária ao poder vigente, com vista ao bloqueio do seu exercício.
Ainda que correndo o risco de ser agora encarado como coligado ao PS, considero que o vereador do PSD agiu bem e decidiu correctamente, em respeito pelo interesse geral do município e não por interesses pessoais que marcam e influenciam quem, de vários quadrantes o critica, em diferentes momentos e circunstâncias.
Agiu correctamente o vereador do PSD na CME ao colocar acima da disputa partidária, os interesses do município, bem como ao respeitar a necessidade de assegurar os compromissos financeiros do município assumidos em anos anteriores, sobretudo na fase final do anterior mandato.
Agiu bem o vereador do PSD na CME por assegurar a satisfação dos interesses dos fornecedores e empreiteiros da CME que não se podem ver prejudicados de um momento para o outro por qualquer leviana e imponderada decisão de algum vereador menos consciente.
Agiu de forma construtiva o vereador do PSD na CME ao propor alterações às grandes opções do plano de actividades para 2007, dando particular ênfase ao avanço dos trabalhos no Aeródromo Municipal de Évora, do Parque de Feiras e Exposições, iniciando-o em 2007 e antecipando em um ano a programação apresentada para a sua conclusão, a melhoria das acessibilidades rodoviárias e a criação de estacionamento.
Actuou ainda o vereador do PSD de forma decisiva para o futuro de Évora ao tomar a iniciativa de apresentar a proposta de elaboração do Plano Estratégico de Évora em 2007, instrumento de planeamento considerado vital para a orientação e desenho de políticas de desenvolvimento concelhio, proposta que foi aceite e integra o Plano de Actividades da CME para 2007.

2006-12-10

GARANTIAS PÚBLICAS E PRIVADAS DOS FUNDOS DE PENSÕES

Ao que parece, faz cada vez menos sentido a resistência de muitos a uma aplicação mista dos descontos para pensão de reforma, nomeadamente no que toca ao envolvimento de fundos privados e produtos financeiros de operadores privados como seguradoras e bancos.
O argumento de que a garantia pública (do Estado) sobre a aplicação das nossas contribuições é mais fiável e segura, face ao risco sempre envolvido nas aplicações financeiras, não parece muito convincente.

Bagão Félix desacreditou totalmente os cálculos e garantias do Governo, num seminário recente em Évora, organizado por uma seguradora.

O seminário contou com o Presidente da Câmara de Évora na sessão de abertura, o que foi bastante adequado, pois para falar das pensões de reforma que não vamos ter (eu e muitos outros presentes na sala), ninguém mais entendido do que um presidente de câmara que tomou posse à sucapa e à pressa, de forma a poder beneficiar de 16 anos de reforma correspondentes a 8 de mandato autárquico.

Bem escolhido o orador. E, sendo do PS, tão credível quanto o Governo do partido dele.

2006-12-09

Por isso há quem diga "Prós e Prós" às segundas.

Aos funcionários públicos que vão passar ao quadro de excedentes, que votaram PS e que continuam a apontar no mesmo sentido nas sondagens, uma prendinha (retiramos o pessoal da segurança, da saúde das forças armadas, da educação da ... ).
A prenda é a descredibilização de uma reforma que é mais que necessária. Discurso e demagogia, mas, na prática, nada. Quem aguentaria correr com tantos socialistas incompetentes dos cargos para que foram nomeados?
Estarão á espera do próximo QCA (agora QREN) para transitarem de uns locais para outros?

Esta última, não é uma prenda do PSD, sempre considerado mau no Governo, mas do PS, por isso, tem outro sabor, mais amargo para muitos.

RISCO DE DESPROMOÇÃO

Não me envergonho de ser português, nem nunca estará em causa o meu sentimento de pertença a uma nação, ou seja, a nacionalidade e o patriotismo, mas que me envergonho muitas vezes do país onde vivo, é bem verdade, porque deixamos todos os dias que tal aconteça e, no resultado, temos responsabilidades.
O que deixamos que muitos políticos, autarcas, gestores de SAD's do futebol e governantes façam, é nossa culpa e, disso, do legado que vamos deixar aos nossos filhos e que já hoje é feio, devemos envergonhar-nos.
Muitos países catalogados no "terceiro mundo", poderão orgulhar-se de nunca ter visto capas de jornal como esta, tão repletas de "vergonhas".
Para um país da Europa e da União Europeia, corremos o risco de ser despromovidos a uma (a pior e menos desenvolvida) província ibérica, tal como Plutão foi despromovido por não ser um planeta a sério.
E ainda há quem tenha o descaramento de, nos jornais regionais, vir levantar a necessidade da regionalização? Para gerirmos, com os nossos próprios meios e vontades, o quê? A mediocridade? Essa que alimenta a manutenção de cargos políticos dispensáveis?
Não obrigado! De medíocres, está Portugal cheio. O resultado está à vista.

CADA TIRO... raposa.

2006-12-04

DIÁRIOS DE PESCA (Dezembro de 1999) - "Os Últimos Heróis"

DE UM AMIGO QUE MATA O TEMPO COM A ESCRITA. BOM VÍCIO...
O ano iniciava a sua décima segunda volta, as tempestades faziam transformar o país num autêntico lago, o governo demonstrava um significativo mau estar, o futebol ocupava os tempos de antena com a habitual peixeirada, “Camarate ressuscitava” e fazia tremer a justiça injusta deste país.
Era o fim do ano, do século e do milénio a demonstrar que precisava de mudança, o Partido Comunista agonizava, a guerra entre a ortodoxia fechada e a modernidade aberta, fazia cair cabeças antes do caloroso congresso.
O dono do mundo fazia gastar rios de tinta, enquanto indefinidamente não definia quem seria o substituto do mau, agora bom, Bill Clinton.
Morria-se na estrada, repetiam-se os assaltos nos montes do Alentejo e noutros locais e as discotecas da grande Lisboa dançavam ao som de tiros e as bebidas como que por milagre, transformavam-se em sangue, a ordem passava a desordem e a autoridade demonstrava que estava proibida de fazer justiça. É o país e o mundo que temos! Pensava eu.
Mas aqui, neste Alentejo profundo, neste canto do país lembrado sempre que há eleições, o tempo vai correndo (devagar que não temos pressa) e os homens, estes últimos, continuam a ser iguais a si próprios, a amar o seu canto, a desejar o seu campo e a adorar o seu gado.
Vem isto a propósito da verdade que ainda são os últimos homens e mulheres do campo, aqueles que sofreram com o Estado Novo, que tiveram esperança na “primavera” marcelista, que se entusiasmaram com a Revolução dos cravos, que foram empurrados para o infortúnio da Reforma Agrária.
Por estes homens e mulheres tudo passou, ou por tudo passaram!
O latifúndio por onde gastaram as suas mal pagas energias não deixou de o ser quando também mal pagos, trabalharam para uma reforma agrária que de reforma nada teve. Se eram explorados no antes, também o foram no depois.
É assim o raio da vida! Dizem eles.
As reformas, essas esmolas que os governos lhe oferecem são as mais baixas relativamente a qualquer outro cidadão, uma vez que depois de dezenas de anos a trabalhar, as recebem, iguais ou menores em comparação, às que recebem cidadãos que nada produziram para o bem da humanidade.
Mas mesmo assim, depois das agruras da vida os queimar mais que o sol ardente deste nosso Alentejo, continuam a amá-lo e a trabalhar por gosto.
E foi assim, que no princípio deste último mês de dois mil, quando a tempestade se abatia sobre os campos, o pastor, o único companheiro de algumas centenas de ovelhas, de uma burra e a sua cria e de dois rafeiros alentejanos, enquanto o solo gemia por excesso de água, enquanto os sobreiros se torciam obrigados pela força do vento, ele, mais por amor que por obrigação, encharcado até aos ossos, pegava num borrego que tinha tido o infortúnio de nascer num dia de vendaval e da vida pouco esperava.
A mãe, berrava/balia como que a pedir socorro e têve-o. Uma saca serviu para agasalhar o animal moribundo, que ao colo do pastor ia de cabeça caída.
O Alentejo estava parado, naquele espaço de planície só se ouvia o respeitável som que a força da chuva e do vento provocavam, o rebanho parou, as ovelhas encostaram-se umas às outras para se defenderem da tempestade, os cães enrolaram-se junto ao pé/tronco de um sobreiro e olhando em redor, só se viam movimentar dois seres, os únicos preocupados, a mãe ovelha e o pastor contrariando a tempestade, procuravam a salvação do futuro carneiro.
O monte onde se poderiam abrigar ainda era longe, as botas pesavam e a chuva e o vento travavam o passo do homem que procurava salvar o animal, parecia a acção desenrolada no “Barranco Dos Cegos” de Alves Redol, quando o filho do Relvas e a égua amiga, tentavam livrar-se da cheia do Tejo, como se um toiro das Lezírias, os procurasse com a ponta dos chifres afiada.
Mas enfim, o monte foi alcançado, a esposa do pastor tinha o lume aceso, a saca molhada foi substituída por uma outra seca que foi colocada dentro de uma caixa de papelão, o futuro carneiro foi limpo e metido dentro da caixa que foi colocada junto ao lume, a morte parecia aproximar-se, a mãe ovelha ficou à porta do monte como que à espera que o amigo lhe trouxesse novidades do filho.
No interior da casa, o homem e a mulher, conseguiram transformar aquele espaço num local de recuperação de vidas, que em termos de calor humano, fazia inveja a muitos hospitais para onde os cidadãos despejam dinheiro a rodos, em troca de quase nada.
O pastor enxugava a roupa encharcada ao calor da lareira, a esposa, depois de cuidadosamente ter limpo o borrego, preparava-se para amornar um pouco de leite num biberon à espera que o animal se aproximasse da vida ou a vida dele, o pastor massajava-o, mas a vida parecia não gostar do calor da lareira.
A luta era terrível, mas eles não desistiam, por amor ou por serem companheiros de longa data, ou por terem os dois passado pelas mesmas agruras da vida, “navegavam” nas mesmas águas turvas, à procura de um encontro com esta.
Quase que por milagre, passadas cerca de duas horas, o animal começou a reagir, primeiro levantou a cabeça, depois berrou/baliu como que a chamar a mãe que o aguardava à porta da casa.
A vida de repente encheu aquele animal de energia, parecia tê-lo avisado que o lugar dele não era ali, mas no campo junto à mãe e aos seus jovens companheiros e ás outras mães, bem como junto à burra e sua cria e aos dois rafeiros que eram os defensores do rebanho.
O homem e a mulher sorriam um para o outro, não conseguiam esconder a alegria de estarem na eminência de salvar uma vida.
A mulher, após verificar que o animal reagia pegou no biberon com leite morno e ferrado, ajeitou-lhe a boca e deu-lhe uma leve refeição que ele recebeu com alegria e prazer pelo que se notou pela sua expressão corporal.
O pastor, radiante por ver o animal a recuperar, retirou-o da caixa de papelão, incentivou-o a andar um pouco pela casa e depois foi mostrá-lo à mãe que o esperava à porta.
O encontro foi emocionante, a mãe amamentou com extrema ternura o filho ex-moribundo, mas o pastor, não fosse o diabo tecê-las, fê-lo regressar ao calor da casa.
A mãe ovelha percebeu a intenção do seu protector e numa reacção de conforto e alento, foi descansadamente comer as ervas que despontavam do valado do quintal e depois deitou-se em silêncio à espera que lhe devolvessem o filho, para depois regressar ao seu mundo, ao rebanho.
Eu vi, estava ali, o silêncio foi também meu companheiro, a pesca ficou guardada para o próximo século porque a tempestade me obrigou a “assentar arraiais” num sítio mais seguro com a permissão dos salvadores do jovem futuro carneiro.
A recuperação da vida do animal, deu-nos alento para podermos falar, o homem e a mulher do campo, a quem a chuva e o vento não importunam grande coisa, bastou-lhe ver transparecer vida, para que as suas expressões rejuvenescessem e transbordassem alegria.
As horas de trabalho já iam longas àquela hora do dia, era necessário fornecer energia ao corpo, comer qualquer coisa substancial, porque ali governam outros hábitos e o corpo não é de ferro.
O lume estava aceso, os paus dos chouriços bem preenchidos no interior da chaminé, cruzavam-se com os olhos brilhantes que também os espreitavam.
A faca não perdoou e em segundos uma linguiça estava a grelhar sobre as brasas, a esposa do pastor preparou a mesa enquanto o cheiro nos ia deliciando e a conversa começava agora a despontar quase em simultâneo com o estalar da rolha de um garrafão de tinto também do Alentejo. Dizia-me o homem, é assim a vida amigo, no campo tem que ser assim! Mas eu gosto disto, sinto-me bem com eles, gosto de os ver crescer, de os baptizar e de continuar a conhecê-los pelo nome, gosto de os ver brincar e de começar a marcar o seu terreno, gosto de os ver à marrada quando começam a pensar que já são adultos. E depois, os escolhidos para reprodutores, gosto de os ver tornarem-se imponentes e demonstrarem que são os senhores do rebanho.
Eu tinha sido convidado, estava ali obcecado com o que acabara de ver e perguntei-lhes, como se sentem aqui neste quase deserto? Como vivem aqui todos os dias e todas as noites, apenas com os animais, o lume e a televisão? Sentimo-nos bem! disseram-me.
Apenas sentimos saudades dos nossos filhos e dos netos, os filhos não quiseram ficar por aqui, disseram-nos que precisavam de viver, de conhecer outros mundos, de estudar mais e de procurar outra vida para os filhos, melhor que aquela que nós lhes pudemos dar, os estudos deles aqui, foram até ao possível, mais não podíamos ter feito. Mas felizmente eles entendem isso..
Só vêm quando podem, um está em França, o outro está para a zona de Lisboa, ela conheceu um homem do Norte e foram viver para a terra dele.
Estão todos bem, mas nós não podemos sair daqui para os visitarmos porque temos os animais do patrão e também os nossos, eles precisam de trato e de companhia.
E os netos, os netos amigo! Esses, não nos deixam dormir, a saudade é imensa, gostávamos de os ver fazer diabruras, nem isso conseguimos, mas é a vida, é a vida, que lhe havemos de fazer?
Qualquer dia, quando os pés nos começarem a pesar, vamos para o bairro junto à cidade, (Évora) onde conseguimos comprar um terreno e construir uma casa que ainda gostaríamos de habitar alguns anos.
Por enquanto ficamos a aguardar que o Alqueva nos traga novidades para que possamos melhorar a nossa vida. Vamos ver, vamos ver amigo…o que isto vai dar…
Começou a tornar-se tarde, na pesca nem valia a pena pensar, a hora aproximava-se do almoço, a conversa prolongou-se e o casal fazia questão que eu ficasse para almoçar, a senhora insistia que iria sair um cozido à moda da casa, mas eu tinha que partir antes que a viatura de estrada não fosse capaz de sair de algum abismo que inesperadamente lhe aparecesse naqueles caminhos de terra batida.
Já tínhamos falado muito sobre a vida nos campos, os assaltos, o ordenado baixo o isolamento do mundo e da família, mas nunca reconheci na expressão daquele casal sinais de tristeza ou de revolta com a vida, o que interessava era a saúde, o trabalho e a paz. O resto logo se veria…
Despedi-me destes que eu considero uns dos “últimos heróis”, que ainda sobrevivem neste nosso Alentejo, os apontamentos enchiam-me o cérebro depois de algumas horas a presenciar aquele extraordinário espectáculo de humanidade, no carro reforcei os que considerei mais importantes e passei-os para o papel, para não esquecer este dia e depois parti.
Seis anos depois, o reencontro.
Passaram os tempos e a vida vai-nos fazendo partidas, a pesca apesar de ser um momento de descompressão, não consegue ultrapassar as necessidades de uma vida moderna obcecada pelo tempo, pela hora, pelas necessidades de cumprimento dos indesejáveis ou desejáveis valores ou objectivos do mundo actual, voluntária ou involuntariamente, somos forçados a seguir regras culturais ou sociais, que por vezes até nem conseguimos explicar.
Mas a vida não pára, os Homens são mesmo assim, não temos que parar e sem querer, neste deambular de vidas, acabamos por nos encontrar.
Quase seis anos depois, quando deambulava pelos arredores da cidade, encontrei o homem que tinha salvo o borrego, laborava na terra onde tinha construído a casa de que orgulhosamente me tinha falado, naquele dia inesquecível de chuva e de salvação de uma vida, a do borrego.
Reconhecemo-nos imediatamente e ele disse-me: amigo, como lhe tinha dito, tivemos que partir, veio-nos a reforma mesmo escassa e decidimos abandonar o campo, vendemos as ovelhas e a burra, ficámos apenas com os dois companheiros, os nossos rafeiros que também já vão sentindo a idade mas não perderam o carinho que sempre tiveram por nós e como paga, para eles não sentirem a falta das companheiras, trouxemos-lhes seis ovelhas que eles defendem ainda com fervor.
Quis que eu entrasse para cumprimentar a esposa tendo esta demonstrado como há seis anos atrás, a sua extrema simpatia.
A primeira conversa foi sobre o célebre borrego que com alegria, descreveram como um animal que se tornou imponente, bem armado de cabeça e chefe dos reprodutores, deixaram-no com pena já bem adulto, mas não puderam evitar a partida.
Fiquei embevecido com a recepção, falaram-me dos filhos, dos netos, da sua maior e mais fácil proximidade e abriram-me a casa e a mesa, foi um reencontro maravilhoso que se tem repetido nestes últimos tempos.
Como se aprende com os que dizem incultos! Que triste incultura, alguma cultura, que se vende e cara!
Ficou-me interiorizada esta história real dos homens e mulheres do campo, dos animais e da terra, e muito em particular deste casal, deste homem bom e desta mulher boa, que depois de os voltar a ver e conviver com eles, apeteceu-me voltar ao local onde os tinha conhecido.
O milénio estava quase a começar quando isso aconteceu, quando os vi pela primeira vez. Hoje, voltei a pegar na cana de pesca e no livro de apontamentos e quis ir ver, reconhecer o velho monte e o espaço onde tinha estado, agora que a roda do tempo está quase a acabar a sua sexta volta e esta quase a terminar a sua décima primeira jornada.
No caminho, como anteriormente, (seis anos se passaram) meditei sobre o meu país e o mundo, e os homens “loucos” que o comandam, interroguei-me como se prendem policias e se soltam ladrões, como se fazem experiências nucleares quando os senhores do mundo dizem ter um projecto para a paz, como se desconta tanto dinheiro para a saúde e educação e somos tão mal servidos, como há uma comissão de análise da função pública que ganha balúrdios para a analisar vindo não sei de onde, deixando o trabalho incompleto mas concluindo que os males deste país advêm dos chamados funcionários públicos.
Mas outros há que recebem democraticamente quantias chorudas (não ordenados) provenientes dos impostos que todos pagamos, nunca sendo culpados de nada, é a isto a que chamam democracia, ia eu pensando.
Antes de chegar ao velho monte, ia já a minha mente com uns laivos de extrema alegria, e consegui mesmo colocar-me a pensar que o nosso país vai ficar melhor, vai sim senhor!
Acaba-se com os funcionários públicos de seguida com os professores, com algumas maternidades e alguns hospitais, fecham-se as escolas, constroem-se mais campos de futebol, retiram-se os medicamentos financiados pelo Estado aos doentes velhos e novos, aumenta-se o ordenado de alguns médicos não os que trabalham mas os que estão mais perto da sua ordem, regressam as férias grandes dos senhores juízes e aumentasse-lhes também o seu mísero ordenado, renegoceia-se com alguns bons administradores e aumentasse-lhes também os insuficientes ordenados, sem querer saber quantas empresas eles levaram à falência, fecham-se alguns lares para os idosos deixarem de fazer despesa na Segurança Social, as viaturas do Estado passarão a andar mais na rua ás compras com as senhoras de alguém, ou noutras andanças, por conta do grupo dos chamados bons cidadãos deste país.
Assim, o Senhor Engenheiro Sócrates conseguirá na posteridade, tal como o papá do Bill, fazer enormes palestras sobre o seu grande trabalho neste país á beira-mar sepultado.
Parei e reparei que tinha estado por algum tempo a sonhar e voltei à realidade que ali me levava antes de começar a azáfama da pesca.
Retrocedi no tempo e depois de meditar algum tempo, ainda acreditei que de facto a História se repete.
Há seis atrás, a chuva era torrencial, o campo estava completamente alagado, as cheias atrofiavam a vida das pessoas, a justiça (não a dos tribunais) também parecia tal como agora, fazer renascer o mistério de Camarate, os assuntos do futebol choviam na comunicação social, hoje assim acontece, alguém parece ter lidado com algum dinheirinho como quem não quer a coisa, o partido comunista anda outra vez de candeias ás avessas, continua a morrer-se na estrada, os desempregados aumentam, os idosos continuam a ter uma reforma que lhes dá nem para medicamentos, os servidores públicos que não são funcionários públicos, continuam a receber chorosas maquias e o país em que eles mandam (mal) continua sem levantar-se mesmo com toneladas de cifrões enviados de Bruxelas e que se bem aplicados, poderiam tornar este rectângulo de alguns, num paraíso para todos.
Tornava-se já uma tarefa difícil, deixar estes pensamentos, estas revoltas, este condenar de injustiças.
Mas não podia deixar de levar a cabo a observação que para além da pesca me fez deslocar algumas dezenas de quilómetros. Parei para me certificar que me encontrava exactamente no mesmo local onde tinha estado no final do último século e milénio, as diferenças eram significativas mas o local era de facto o mesmo.
O espaço onde encontrei o rebanho e presenciei a cena de recuperação da vida do borrego, está já todo vedado a arame farpado a espaços bem curtos e no interior da vedação lá pastam como antes, as centenas de ovelhas mas não se avistam nem burra, nem cria, nem rafeiros alentejanos e muito menos o homem alentejano.
O monte está rodeado de ervas, a rua do mesmo que se encontrava limpa, bem varrida, já não se reconhece como tal, as paredes parecem ter chorado ultimamente porque o seu telhado foi alvo de vandalismo, as telhas estão retiradas, partidas, deixando de fazer a sua real função.
No fundo vim reencontrar um espaço que se transformou completamente. Transformou-se num lugar triste, desolado e sem vida.
O aumento da produção e da produtividade transformaram a relação de homem rebanho, numa outra forma substancialmente diferente.
Outros homens, outros trabalhadores, de outras partes do mundo, estão hoje ligados ao velho rebanho, visitam-no de tractor, de moto quatro, de jipe, mas a relação do homem com o animal, essa ternura que eu presenciei há meia dúzia de anos, já não se sente ali.
Depois desta observação, parti com alguma tristeza rumo ao local de pesca onde passei por vários montes alentejanos verificando que já são raros os nativos que ainda por ali se vão vislumbrando. Os que existem, na sua grande percentagem, já estão na última etapa da sua vida.
Não seria tão preocupante o que acabei de verificar se este êxodo fosse fácil de fazer recuar, ou se o mesmo acontecesse em pequenas percentagens do nosso Alto e Baixo Alentejo, mas não é assim, os Alentejanos estão a partir, ou já partiram, porque a História assim o demonstra, a economia, a política, a educação, a segurança social, o isolamento, a exploração, obrigaram-nos a partir.
Eram eles e ainda são os que restam, que percebiam e percebem, entendiam e entendem, este nosso campo, este nosso espaço, este nosso clima, que defendem e seguram esta nossa forma de estar e de ser, sem eles o Alentejo passará apenas a ser terra e água subaproveitadas que lentamente se aproximam do deserto.
Hoje outros trabalhadores que certamente partiram dos seus países por razões idênticas ás que fazem partir os alentejanos, estão a desempenhar funções nos campos do Alentejo, como sabem, como podem, como lhes ensinam ou ordenam, mas qualquer emigrante, pelo que se houve, espera melhores tempos para regressar ao seu país de origem, para encontrar a sua família, para voltar ao seu espaço natural e certamente quando isso acontecer, os nossos governantes e as classes com grandes interesses económicos no Alentejo, irão pensar porque não pensaram, irão reflectir fora de tempo porque não criaram condições aos seus para se desenvolverem como trabalhadores e pessoas, usufruindo de uma vida mais digna?
Posso estar completamente enganado, mas o tempo me dirá e não vai ser longo certamente, que “estes últimos heróis” ainda irão ser chorados, porque quando os países de Leste e Africanos tiverem o bom senso de acabarem com as guerras de vária natureza que externa e internamente os envolvem e comecem racionalmente a aproveitar a riqueza que têm, ocorrerá outro êxodo, estes emigrantes que hoje à falta de melhor, se vêem obrigados a ser os substitutos dos alentejanos, partirão e aí sim, naturalmente, uma reforma agrária não política mas natural, ou social, de sobrevivência, ou sabe-se lá como a vão apelidar, irá ocorrer.
Para a História, ficarão muitas Histórias…, incluindo muito especificamente e especialmente, a história que deveria ser bem escrita e bem contada, mas que não interessa certamente a muita gente, sobre o que foi a Reforma Agrária de setenta e cinco, todo o seu processo, o seu princípio meio e fim, este em tempos já anunciado, mas que certamente ainda irá fazer correr muita tinta e muitos Euros.
Os últimos heróis e os outros que ainda são também alentejanos, imitando os Americanos relativamente aos índios, como aliás sempre se tenta fazer neste país, por ordem do governo que por esses tempos des/comande, irão ficar junto ao Alqueva numa zona designada de reserva, para que, os turistas de qualquer nacionalidade, a partir da relva que certamente é para o que vai servir a água que tanto se esperava para a agricultura, os possam ver através da vedação que não faltará não para evitar que eles fujam mas para manter segura a verba que os mirones irão pagar para verem esta espécie em extinção.
Mas já agora, em jeito de aviso aos futuros candidatos a governantes deste país, quando esse tempo chegar, digo-vos.
Cuidado porque mesmo alentejanos, andando devagar, se não se apressam a fazer a reserva, como eles continuam a pensar, qualquer dia não está cá nenhum.
E depois? Que fazem os senhores? Para fazerem dinheiro com os bilhetes para a visita à reserva, que lhes dará sustento e espaço económico para passearem no Estoril e noutras andanças da estranja?
Tenham cuidado… não tenham que recorrer a alguns desses falsos alentejanos que fizeram ou mandaram fazer alguns montes nestes campos ardentes, pois poderão ter que fazer mesmo isso.
Mas atenção! Os turistas têm dinheiro e cérebro e não pagarão bilhetes para ver falsos alentejanos.
Enquanto acabo de escrever sobre a preocupação que tenho com o meu Alentejo e estas minhas gentes que ainda resistem no seu interior, julgo poder concluir que a máquina política é a culpada deste prolongar de sistema que obriga ao êxodo de pessoas a quem se deveria dar condições de vida suficientes em todos os aspectos para se sentirem bem consigo próprios e com os outros.
Acabo de ler uma entrevista dada por uma mulher que eu e certamente muitos portugueses admiram, Dulce Pontes e transformo as palavras dela naquilo que eu penso e queria dizer.
“Tem que se furar esta merda deste sistema. Peço desculpa mas não pode ser desta forma. Desta forma eu não aceito. Preocupa-me o meu povo, o meu país. A vida pertence-lhes caramba!”
Évora 31 de Novembro de 2006.
Francisco Martinho